no prédio
concreto
da cidade
que arde
um passarinho
faz seu ninho
às vezes sou criança
às vezes tenho esperança
no asfalto rachado
cresce o verde
Colorindo o urbano
e chamam de praga
de erva daninha
quem não é arrastado
nesse ritmo insano
Apenas posts sem importância para a vida humana em geral
no prédio
concreto
da cidade
que arde
um passarinho
faz seu ninho
às vezes sou criança
às vezes tenho esperança
no asfalto rachado
cresce o verde
Colorindo o urbano
e chamam de praga
de erva daninha
quem não é arrastado
nesse ritmo insano
Para onde vai
O fluxo da cidade
Viadutos e avenidas
Todas entupidas
Passa um carro branco
sou mais um na multidão
A metrópole sofre hipertensão
E nem pensa nas vidas
Um rapaz vai ao cinema
com a namorada
Balde de pipoca, mãos dadas
filme francês ou de herói
Velhas cheirando a alfazema
Um carro preto passa
E entope a avenida da cidade
Ninguém se move e na verdade
A cidade vai sem graça
Prédios, asfalto, sinto calor
O tal progresso destruiu tudo
Seu carro caro não sai do lugar
Buzinas são a orquestra da sua rua
O silêncio ficou sem valor
O futuro não é mudo
Eu só tento falar
A minha verdade crua
Meus pensamentos são diversos
Minha cabeça viaja tanto
Que não escuto o motor
Que faz tudo girar
Se não ouço o canto
Das rimas desses versos
Sinto que preciso parar
E voltar a ser leitor
A vida passa rápido, amigo
Temos que pisar na grama
Olhar menos o umbigo
Mais para quem se ama
O céu ainda é o limite
Mas o espaço ali está
O mundo gira veloz
E não depende de nós
viva, chore, grite
Acredite
O tempo vai acabar
Eu era só uma criança
quando vi a guerra na TV
O mocinho atacava incansável
seus dragões de fogo espetaculares
escapavam do radar, cruzavam a noite
mesmo na escuridão total
O fogo chegava no alvo final
Hospitais, parques, crianças.
Belgrado é aqui do lado
Eu já era mais velho
quando vi a morte na internet
ao alcance de um clique
caos online ao alcance da mão
buscando um suposto culpado
mas nada foi provado
Nenhuma organização que explique
o bombardeio de uma nação
Bagdá é mais pra cá
Li no livro de história
Sobre o agente laranja
E o custo bilionário de bombas
Que nunca destruíram a esperança
Na ofensiva do Tet
O Vietnã virá amanhã
Agora ligo a TV
Ou um rádio me diz
A barbárie é tão próxima
Na cidade que parece feliz
tá mais difícil sorrir
O Haiti é aqui
No mesmo trilho segue o trem
Monótono ou ritmado
indo sempre ao mesmo lugar
mas ainda é tão cedo
Gente mau humorada na outra estação
vivendo no mundo do seu celular
o futuro distópico dá medo
lá onde não quero estar
O trilho treme o trem
mesmo preso no dormente
não afeta a essa gente
que vão e nem sei de onde vêm
A alavanca vermelha na parede
fala sobre situações de emergência
como usuário preso na porta
acidente ou coisa assim
Quero declarar uma urgência
e usar a alavanca enfim
para parar a mesmice do dia
e fugir da realidade torta
já são oito da manhã
e o trem está lotado
de gente que nem queria estar aqui
uma paranoia coletiva
bater o ponto e viver apressado
sem expectativa de fugir
a não ser pela porta que entrou
vivendo numa apatia passiva
Saem pessoas, entram pessoas
talvez nunca mais veja ninguém
eu não gravei suas caras
são como vultos na multidão
será que sou alguém
fechado nessa minha ilusão
vivendo uma vida à toa
enquanto o tempo passa
Por muito tempo eu quis
Ser outra pessoa
Alguém que eu julgava melhor
Calcei os sapatos azuis
Embarquei naquela canoa
E derramei o meu suor
Anos gastos no túnel
Sem ver direito a luz
Como uma grande miopia
Esperando chegar o dia
Corri para ser alguém
Vivi os anseios dos outros
E meus sonhos eram poucos
Um dia acordei e olhei as cortinas
Decidi encarar o mundo
As ruas e suas esquinas
Explorar a alma a fundo
A expectativa alheia
Não é mais meu farol
Agora busco meu próprio sol
E minha lua cheia
Tenho um penteado novo
que incomoda alguma gente
mas sigo indiferente
Tenho um novo pensamento
Que irá me levar longe
E pode durar um momento
Mesmo quando as máquinas dormem
Eu continuo aqui
Não posso desistir de mim
Nem nuvem no céu azul com o calor que faz tenho medo de rimar
O Sol vem todos os dias Só vem para queimar A manhã que nasce amena Na manha se põe sem pena mas amanhã vem brilhar
Não escrevo pra salvar vidas
Nem minha nem de ninguém
nem me atrevo a posar de herói
e pintar um quadro que não convém
quero é o caos das verdades caídas
homens maus que enganam por enganar
Sou talvez aquela noite escura de lua nova e sem estrelas
Cave a cova sem que possa vê-la
Um lamento, muxoxo, lamúria