sábado, 20 de janeiro de 2018

Sábado no Bairro

Sábado no bairro
O sol até brilha mais
Reflete as pessoas na rua
O ar é mais calmo
Sem pressa, sem trabalho

Tem a feira vendendo tudo
Par de meia, mingau, suco
Camarão pra moqueca
Dendê pro vatapá
É sábado de manhã
Não vá se atrasar

A criançada brinca na rua
Sob a vigilância do dos pais
É um luxo com tanta violência
Nessa cidade mundo cão
Que se veja essa convivência

Os atletas correm na praça
Que ainda é de graça
Vai saber se mudaram
Piscou, privatizaram

Mas não
A praça é do povo
Do véi, do novo
Pra curtir sem confusão

Tem uma galera de skate na pista
Fortalecendo a cultura de rua
Half cheio, dou uma vista
mas se não é a sua
Pode pá, ir pra praia surfar

De bike sem pressa
Vou curtindo o vento na cara
Que fique tudo bem, tomara
Hoje nada me estressa
Vou esticar até a praia

Olhar o mar bem azul
Tranquilo e infinito
Até onde a vista alcança
Essa é nossa melhor herança
O que nos resta preservar
Sem sujar a praia, maldito

Mas eu tô ligado
No movimento
Biquini pra lá e pra cá
Tô atento

Praia é essa
curtir o vento
saborear o momento

Mas tá na hora de voltar
Como todo sabadão
lá em casa tem feijão
não convém atrasar

E de noite pode ser
Vou conferir no celular
Se um brother me chamar
parar no bar pra beber

uma gelada de boa
é sábado no bairro

Fim dos tempos

Foi bom ter te conhecido
Mas na boa, tô vazando
Peço a conta desse mundo
Por angústia, tédio
Cheguei ao fundo
Me vejo solitário e perdido
E meus sonhos são uma piada

A gente pensa cada coisa
Numa madrugada sem dormir
Olhando pro céu infinito
Sem vontade de estar aqui
Pensando no dia repetido

O dia de amanhã é hoje igual
Sol quente, tédio e tal
O relógio se arrasta lentamente
Com a preguiça de quem sabe
Não é tudo sobre a gente
O sentimento nem cabe
Nas letras de um verso
Que revele meu lado reverso

Eu já fui mais novo
E era sobre depressão
Hoje eu vejo ao redor
É tudo sobre desilusão
Se é ódio não sei
Se é desprezo talvez

O mundo roda e não se importa
Porra, não pedi pra nascer
Não pedi tanta merda
Acontece por acontecer
Simplesmente
Se foda

O que eu pedi ou não ocorreu
Ou escapou entre os dedos
Escorreu
Como a areia branca da praia
Aquela perto de casa
Aquela brisa do mar

Se pensar em tanta desgraça não dorme
Olha eu aqui acordado
De madrugada como um otário
Desejando apenas um algo
Que nem sei o que é
Não são desejos, não é fé

Tic tac o tempo vai
Implacável ele não para
Amanhã eu acordo cedo
Eu deveria acordar cedo
Eu deveria ser útil
Deveria orgulhar minha mãe
Fazer a roda da sociedade rodar
Uma qualquer conversa fútil
Num ponto esperando buzu

Eu deveria romper o tédio
Acordar num dia inspirado
E pular do topo do prédio
Pof! Esmagado
A gravidade é cruel
No chão que nem papel

Mas porra eu tenho medo daltura
Tenho medo de viver
De ver que posso gostar
Pra onde eu iria fugir
Se não tem lado de fora?

Se só tem o agora
O antes já foi, morreu
O depois está no ponteiro da hora.
Ele chega mas nunca sou eu.

Tô entediado e odeio as horas
Elas passam mas e daí.
Todos ficamos aqui.
Lutando contra o maldito relógio

Pra ter lembranças boas
Pra ser um velho nostálgico
Isso não é pouco prático
Parece uma vida a toa.

Não acabou o tédio, o ódio
A frustração de ser um bosta
De jogar no time dos derrotados
Eu apenas aceitei meu lado.
Não há mal nisso.

Mal é não rimar o verso
Deixar os versos soltos
Não rimar por desleixo não é certo

Mas é o sono chegando.
É o olho fechando
Paro essa merda por aqui.

Mate o mensageiro dessa bosta

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Cronos

Numa noite que nada acontece
e o tempo se esgota com preguiça
como lentareia de ampulheta
penso no que escrevi
e repenso lendo o papel
vejo que não tem nenhuma rima
vejo que tá ficando ruim
se não tem começo nem fim
recomeço ajeitando o verso acima
faço um risco, gasto a pobre caneta
rabisco, nada sai, me aborrece
eis que uma ideia simples aterrissa
desisto, jogo uma pedra em cima
me domina essa poesia infiel
de ter que sempre rimar
desisto desanimado

tudo que eu sabia já rimei
a outra metade foi copiado

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O Gesto

Um gesto é algo natural
sai sem que se note sua natureza
espontâneo como viver e respirar
reside no ser a sua beleza
e pode ser marca registrada

mas parado diante do espelho
nu, dentro do banheiro
pode ser cômico repetir o gesto
vai soar muito artificial
deixará de ser simples e banal

hoje deixei de lado aquela certeza
junto com as roupas no pré-banho
e notei vendo o reflexo - curioso
como me desconheço tanto
como o gesto parece imitação
pífia mímica de mim mesmo

Talvez não saiba quem eu sou
o que pensa aquele homem do espelho
quais suas alegrias - e tristezas
ele pensa no que pode ser
ele sabe que vai morrer?
             quando eu sair da frente

Tomei banho e pensei no reflexo
e antes de dormir pensei de novo
fiquei zonzo e agoniado
não consigo deixar de lado

O reflexo me persegue
como um fantasma de maldição
que diz que o matei, fui cruel
e me puxa pelo pé e pela mão

E o gesto? Repita
repita o gesto até ficar bobo
patético e não fazer sentido
 ressucite o reflexo no vidro
e mate-o logo depois

O gesto sabe ser
existe por breve momento
e quando cai no esquecimento
é fantasma que deve morrer

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Sons

A rádio toca algo que não entendo
em idioma que desconheço completamente
o narrador fala com as paredes
e eu sou testemunha de nada - nada sei

A estação já toca na minha mente
não posso mudar - eu me prendo
por que não mudo - não saio
                            - não faço ideia
poderia mudar -  crer em mim
                             -não confiei

Essa angústia diária em minha mente
de desconhecer meus próprios passos
quero correr o mundo com pressa
mas só ando de lado
                                -ou fico parado

Por quê?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Dobra

A dobra é uma metade
é quase um amor
               - que nao vingou
é um fato não tão verdade

É caminho para um
rumo que se desconhece
placa para quem merece
destino a lugar nenhum

É o não estar
                 - ou quase lá
no topo esperando cair
estar dentro pra sair
parando para um dia chegar

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Direção

Dias passam, nada muda
sou o mesmo ali
perdido numa rua sem nome
numa cidade desconhecida
sigo procurando placas
sigo perdido na vida

Existir é uma eterna ressaca
de dor e indisposição
a noite parece distante
aquele sorriso, um borrão
o caminho segue errante
o Sol é ilusão