terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Cronos

Numa noite que nada acontece
e o tempo se esgota com preguiça
como lentareia de ampulheta
penso no que escrevi
e repenso lendo o papel
vejo que não tem nenhuma rima
vejo que tá ficando ruim
se não tem começo nem fim
recomeço ajeitando o verso acima
faço um risco, gasto a pobre caneta
rabisco, nada sai, me aborrece
eis que uma ideia simples aterrissa
desisto, jogo uma pedra em cima
me domina essa poesia infiel
de ter que sempre rimar
desisto desanimado

tudo que eu sabia já rimei
a outra metade foi copiado

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O Gesto

Um gesto é algo natural
sai sem que se note sua natureza
espontâneo como viver e respirar
reside no ser a sua beleza
e pode ser marca registrada

mas parado diante do espelho
nu, dentro do banheiro
pode ser cômico repetir o gesto
vai soar muito artificial
deixará de ser simples e banal

hoje deixei de lado aquela certeza
junto com as roupas no pré-banho
e notei vendo o reflexo - curioso
como me desconheço tanto
como o gesto parece imitação
pífia mímica de mim mesmo

Talvez não saiba quem eu sou
o que pensa aquele homem do espelho
quais suas alegrias - e tristezas
ele pensa no que pode ser
ele sabe que vai morrer?
             quando eu sair da frente

Tomei banho e pensei no reflexo
e antes de dormir pensei de novo
fiquei zonzo e agoniado
não consigo deixar de lado

O reflexo me persegue
como um fantasma de maldição
que diz que o matei, fui cruel
e me puxa pelo pé e pela mão

E o gesto? Repita
repita o gesto até ficar bobo
patético e não fazer sentido
 ressucite o reflexo no vidro
e mate-o logo depois

O gesto sabe ser
existe por breve momento
e quando cai no esquecimento
é fantasma que deve morrer

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Sons

A rádio toca algo que não entendo
em idioma que desconheço completamente
o narrador fala com as paredes
e eu sou testemunha de nada - nada sei

A estação já toca na minha mente
não posso mudar - eu me prendo
por que não mudo - não saio
                            - não faço ideia
poderia mudar -  crer em mim
                             -não confiei

Essa angústia diária em minha mente
de desconhecer meus próprios passos
quero correr o mundo com pressa
mas só ando de lado
                                -ou fico parado

Por quê?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Dobra

A dobra é uma metade
é quase um amor
               - que nao vingou
é um fato não tão verdade

É caminho para um
rumo que se desconhece
placa para quem merece
destino a lugar nenhum

É o não estar
                 - ou quase lá
no topo esperando cair
estar dentro pra sair
parando para um dia chegar

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Direção

Dias passam, nada muda
sou o mesmo ali
perdido numa rua sem nome
numa cidade desconhecida
sigo procurando placas
sigo perdido na vida

Existir é uma eterna ressaca
de dor e indisposição
a noite parece distante
aquele sorriso, um borrão
o caminho segue errante
o Sol é ilusão

terça-feira, 21 de julho de 2015

Céu de Junho

A lua tá aqui no quarto
grande astro iluminando a cama
entrando pela banda da janela

Corre pelo céu, é ela
com seu brilho me chama
Se esconde na nuvem e parte

Demoro, olho
ela me olha por horas
me olha nos olhos
ora bolas, decide sair da timidez
retribuir o cumprimento
resolvi de uma vez
vou pra janela e sento

Disse oi e ela desapareceu
acenei e ela sumiu
orgulhoso o Sol surgiu
Pena...a lua é mais tímida que eu

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Gente



Por todo lado gente pouca
que vive na própria pequenez
gente que dorme de touca
perdem voz e vez

São donos de uma alma egoísta
e se perdem na vista

Ah

gente tão louca
que não liga pra quem diz
que é difícil ser feliz
que de reclamar fica rouca

Esses loucos tem na alma um carinho
e por isso não perdem o caminho

O caminho vale mais que chegar
na viagem se ama e se encanta
o trajeto é assim
a chegada é só o fim